Kelly Munce
medo de tudo, medo do papão
da boneca com olhos de vidro
do polícia do cão.
assim começavam uns versinhos que ela escreveu quando em menina, se escondia dos outros para viver.
um dia, sabe-se lá porquê ou como, o medo foi-se embora e não voltou. ela ficou contente mas estranhou.
seria porque uma cria lhe crescia no ventre até ali liso, espalmado, tipo cana de pesca, frasquinho, miss estaca, palito e outras coisas simpáticas que alguns homens portugueses dizem, alarvemente, às mulheres que não têm silicone?
só podia ser isso. essa força-raiva-de-fêmea adulta a defender a cria.
nem quando a polícia política lhe invadiu a casa. madrugadinha ainda e a levou, tremeu.
mas esta noite, esta noite não sei se durmo em paz, eu não, essa menina assustada, a dos versinhos. é que anda tanta ameaça virtual no ar, que ainda me entram pelo fio do telefone e me matam, no mínimo. ou então, como já por aí li , me atiram pedras aos telhados de vidro.
que chatice eu ter uma vizinha por cima que, com o barulho nas telhas, que são dela, também não vai dormir.
é que estes ataques são à noite, sempre à noite, ou então como dantes: madrugadinha ainda.