li marés há muitas: 03/2006

3/31/2006

jazz - I

ou

o albatroz`

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se não tem sido o anúncio na revista, com a rapariga da bola de cristal a convidá-la a dar uma volta positiva na vida que levava, arrastava, de cansada, nunca teria ela deixado o campo e tomado o comboio para a cidade.


René Asmussen

mas foi tão convincente a rapariga ruiva. nada do que disse lhe pareceu história enganosa de cigana.

nada a prendia ali. acreditou.

partiu.

3/30/2006

o beijo.

at hoho.co.uk
o vulcão ao explodir foi o culpado

petrificámos rochas separadas

há entre nós um beijo e sabe a sal.

frase caída.

Trivenia - Tripod

Pensa-se a partir do que se escreve e não o contrário - Louis Aragon

sol.

José Marafona

eram tempos negros, de pesar.
trovoadas de bombas e canhões invadiam o sono das crianças.
os pais já não dormiam, antecipavam os olhares de fome e medo nos filhos adormecidos a seu lado.

futuro era palavra.

tempos de não brincar, de nem sorrir.

foi então que uma árvore ergueu o mais que poude os braços, na espera de uma escalada infantil ou cordas de um baloiço que desse na subida a ilusão de céu, à infância dorida pela guerra.

logo pela manhã, a meninada deu por ela. correu para brincar.

os tempos eram negros mas a árvore convidara o sol para a sua porta.

e todos se aqueceram na côr e na luz dele.

nesse dia, os pais sorriram e acreditaram um pouco mais na paz.

havia que fazê-la, construí-la, como a árvore fizera: erguendo os braços mais, apenas mais.

3/29/2006

a noiva.

- não quero casar. prisão para melros, não quero, eu sei.

dizia ela sempre, a quem a ouvisse, com convicção.

um dia um amor insistiu demais e ela pensou:


Vitor Nunes

- aquele vestido ficava-me bem.

tem folhinhos brancos como um amarelo que uma vez vesti e me fez feliz...

que mal haverá? se o amo? e eu amo! que diferença faz?


e casou. de branco. vestido de folhos, pétalas voantes.

feliz? nunca foi.

não era amarelo o lindo vestido e a história antiga, não se repetiu.

culpa.

wakacyjne zdjęcia


tem de haver culpados

aonde? que interessa?

esta nossa raiva é viva

e tem pressa

de sair agora

de dentro de nós.


culpados existem.

mas onde encontrá-los?

serve-nos o mar

tão forte tão vasto

aí esta raiva

terá grande pasto.


uma pedra faz

barulho na água...

se as marés, menino,

também sentem mágoa?


e se a nossa raiva

enfurece o mar?

viram-se as barcaças

morrem pescadores.

é melhor parar.

mais vale brincar.

mais vale nadar.

3/28/2006

raiva!

hoje não sei escrever nada mais que isto: fui roubada.

não é a primeira vez e isso é o pior. as memórias regressam em catadupa. imparáveis, intensas. que raiva e que tristeza me acomete!

- quantas vezes devo eu perdoar senhor?

- setenta vezes sete.

eu não sou deus. eu sei que dou se tenho e se me pedem mas, não só me pedem, roubam-me!


galerius

podem pairar igrejas aos montes sobre a cidade que isso não me alivia: fui roubada. outra vez.

raiva raiva raiva. só.

Mikhail Chepelov

mentira. não há lágrima nenhuma a cair de tristeza por quem me roubou. não viram que choveu? é um rebento de árvore a pingar.

por mim só sinto raiva. hoje não vou escrever.

3/27/2006

havia sol

Sergey Militsky

seria primavera já? era, era isso... a tua primavera tinha chegado há dias. no consultório eu já ansiava pela última consulta para correr para ti. uma hora de sol contigo. havia uma hora a mais com sol a iluminar-te inteira na varanda aonde me esperavas.

trocaria todo o luxo do mundo por aquele sorriso à minha espera. daria a minha vida para o rever.


Sergey Militsky

não fosse aquele pequena mania de me ligares a contar uma anedota antes de eu chegar a casa e ver-te-ia agora fumando o teu cigarro e a olhar o vazio da estrada, para lá dos arbustos, até veres o cinza prateado do bentley.

ligaste.

- queres ouvir esta?

queria. queria sempre e ria sempre, mesmo que não ouvisse. ria com a tua própria alegria quase infantil. foi assim dessa vez. mal te ouvia. um camião apitou-me quase em cima mas eu ri.

- céus, deixa-me ir!... cheira a queimado, deixei a lareira a acender, está um frio tremendo no salão. adeus amor.

sorri. eras assim. deixavas tudo a meio, depois corrias de um lado para o outro como um pássaro tonto, a concluir.

nem os carros parados me alertaram muito. uma panne pensei e virei para a quinta. só o fumo, as chamas, os bombeiros me fizeram parar.

já não se via o sol. só fogo. a tua cor preferida além do branco.

- a lareira!

gritei. para quem? para quê?

tão bonitas as chamas. tão cruéis. tão quentes como tu!

Sergey Militsky
há quanto tempo foi? nao sei. foi numa primavera...

sempre que há um incêndio corro para ver. ver-te nele. ver a última luz que se acendeu para ti.

que ciúmes do fogo eu sinto, ó meu amor!

pensando o Teatro no seu dia


by Valery Tumbayev.

A tragédia e a sátira são irmãs e estão sempre de acordo; consideradas ao mesmo tempo recebem o nome de verdade.

Fiodor Dostoievski

3/26/2006

eu.

Mikhail Chepelov

a glória.

Sergey Ryzhkov


luzes luzes azáfama ruído. as aves voam as cigarras calam-se

ela brilha move-se ágil sábia. procura a câmara namora-a sabe-a de cór


acasala dias a fio com ela. debaixo das luzes da voz do fotógrafo do ritmo

o ritmo impossível de quebrar que a luz está a fugir. a luz do sol a luz...


a luz apaga-se.


arrumam-se os tripés. guardam-se as câmaras. junta-se o lixo da merenda breve.

é boa a erva fria. esta pálida e exausta. aonde as luzes? a glória?

quem é? deita-se. fica para trás esquecida no cenário.

3/25/2006

sonho

Paul Williamson

a poesia é riacho dentro da minha cabeça

corre alastra derrama, só lá dentro

depois seca e nunca chega ao mar.

3/24/2006

a chave.

H E aus E

tinha mudado para casa própria. não se imaginava menina dos papás por muito tempo.

claro que provocou choro na mãe e sensação de impotência no pai, que a olhava ainda como uma criança pronta a saltar-lhe para o colo a qualquer hora.

quando o conheceu foi como se renascesse. tudo estava enfim certo. até amor já tinha.

começou a alindar a casa para o receber. aprendeu a fazer dois ou três pratos requintados que ele elogiava sempre, como se fosse a primeira vez que lhos servia.

conversavam quanto baste, como nos condimentos deve ser.
na cama ou onde quer que o desejo os fulminasse, queimavam todas as energias da mais pesada refeição, até se perguntarem um ao outro quem se ergueria primeiro a buscar água ou chocolate.

ele era o homem para ela, disso estava segura.
temporariamente desempregado, decidiu dar-lhe a chave. sabia-lhe bem tê-lo em casa à espera, ao fim do dia.

nessa tarde estava faminta dele mais que de costume, saiu cedo. acelerou o carro. arrumou-o no primeiro lugar livre e correu para a porta. abriu de manso para o surpreender.

corria a água de um duche. tirou o casaco, sorriu, abriu a porta do quarto. ele iria encontrá-la na cama, nua já, disponível, felina e uivariam os dois até a lua decidir dar o lugar ao sol.

na cama desfeita, outra mulher descansava do corpo do seu homem. não falou. viu-a correr para a rua. em silêncio ainda, ouviu-o justificar-se mal e desistir depois, batendo com a porta.

yoshi

nessa mesma noite, trocou a fechadura e nunca mais deu a chave a ninguém.

o milagre.

Peter Siejka

uma papoila arrancada de noite pelo vento, veio cair na ponte de madeira de uma estação velha da cidade.

era hora de ponta. manhã de pressa e sono ainda, mas ninguém a pisou.

os patrões não entenderam porque apesar da chuva e do cansaço de uma semana inteira de trabalho, os empregados chegavam, a sorrir.

3/23/2006

marinheiro triste.

Dragomir Vukovic

parou a olhar o mar. como era grande! vinha com intenção de se afogar. entrar pelo caminho da água até ela o cobrir e não dar para voltar.
em casa a vida era de abandono e castigos sem porquê. a mãe trabalhava na rua, vinha tarde. o pai, não era dele. o pai mudava de semana em semana ou mês a mês.


já não chorava. já não conseguia. já não perguntava - ninguém lhe respondia. por deus cansara já ele de gritar.


o mar tinha um som manso, de marulho. as ondas eram mãos de mãe que não esquecia mas perdera.


à noite, muito tarde, uma mulher entrou numa casa recheada de electrodomésticos novos e móveis a brilhar.


- Raul! anda para a mesa. tenho fome. estou morta de cansaço. não demores.


deve estar em casa da vizinha e o outro malandro dorme que nem um cão.

dormiu ao lado do homem, sem o filho. pela manhã voltou para estrada. tinha a prestação da casa nova por pagar.


Agnieszka Uziębło

pela primeira vez depois de muito tempo, Raul adormecera num colo, sonhando com a mãe.

é grande e doce, o mar.

hoje

Craig Mod


lá fora a fúria do vento trouxe a chuva e os dois, em aliança, abriram finalmente as veias da terra, ávida desse sangue branco.

tudo se modifica. até as gentes.
agitam-se os humanos. falam alto, extravasam emoções.

eu só te espero com braços aparentes de anjo, mas numa sede de aranha em sua teia, pronta a acolher-te nela. a aquecer-te no visco que teci para ti.

vem da invernia, cansado ou não, que importa. primeiro descansarás. depois, já preso em mim, dar-te-ás todo como a chuva se dá à terra neste instante.

eu sou a tua terra. vem. não tardes. ou morrerei de sede, que em mim, há muito tempo é verão.

3/22/2006

cavalgada

paulo cesar

hoje o meu cavalo já foi o galope

no centro do corpo na horla da ferida

que lhe ofereço aberta que ele abre

e reabre e sara e fere outra vez.


hoje o meu cavalo fez-me cavalgá-lo

ao ritmo imposto de um chicote hirto.


hoje o meu cavalo bebeu-me das águas

partilhou as dele desfez-se desfez-me.

hoje o meu cavalo cansado, suado

não dormiu de pé, deitou-se a meu lado.