li marés há muitas: 04/2006

4/30/2006

o meu tempo terminou. que tempo?

regresso sem saber bem aonde, seguindo as pegadas que deixei, ao procurar o amor numa noite de jazz.

Noordwijkerhout

um amor que eu sabia, porque certo. o meu amor. o único.
e agora? cerca-me uma neblina. embacia-se a vida como um vidro de janela em tempo de inverno.

talvez alguém sofresse enquanto eu experimentava a felicidade numa vida sem ela. que fazer?

Gianni Candido

porque não olhou ele o véu de luto que sempre me cobriu, até quando casei?
nunca menti. sabe ele da minha eterna viuvez, melhor do que ninguém.


Blowup

não quero pensar mais nele, agora.

guardo ainda na pele o sal o som o cheiro do prazer que, num gesto de infinita caridade, o universo me devolveu, por uma noite.

há milagres. eu sei. eu vivi um.


(continua)



4/28/2006

vem!

chamei e ouvi o teu chamado. a tua prece?


Lutz Behnke

não era sonho ou imaginação. éramos nós: cósmicos como feitos fomos. unindo-nos através de um espaço-tempo indizível aos outros.

Lutz Behnke

senti-te a mão a dar-me coragem para o voo temido. aceitei-a. que não aceitaria eu vindo de ti?

salto no escuro? que me importava isso, se no escuro vivemos desde o útero materno e é nele que passamos a vida sem saber?


Lutz Behnke

e o fluxo e refluxo do mar nos empurrou de um ao outro, noite a dentro, numa ritmo de canção de fogo e água, de estrondo e de silêncios breves, como gemidos. numa orgia inusitada de marés.


Blowup


alguém mais o sentiu ou o ouviu? duvido. foi nosso esse momento e irrepetível, como todos os que houveram entre nós.

(continua)

4/27/2006

interrompo por cansaço.


vocês entrem e estejam à vontade e, sobretudo, não deixem de olhar a primavera e... as marés.

4/26/2006

quase real (continuação)

lembro-te o avanço mar adentro. como um pescador que deixa o cais. foi assim. sei que foi. a maré era de prata escura e calma doce, misto de embalo de mão e carinho de mãe.

Aleksandr Batura

lembro: tu não te despediste. deixaste as tuas e minhas marcas na areia e partiste . o silêncio tinha um peso de noite sem lua ou alma viva em volta. o silêncio eras tu.

corro os nossos caminhos na direcção da praia aonde te afogaste, te afoguei. que belo fim para quem se amou na água!

cresce dentro de mim o cio ao ver o mar.


bfb

como morto se é a ti só que sinto? é em ti que toco as teclas certas da melodia que foi que é o nosso amor?

block

que digo?

dou comigo a gritar. sei que te espero neste mar vivo que hoje para mim és tu renascido. com o mar terei o orgasmo já inevitável. ele trará a inundação que o meu corpo deseja desde que abri a porta e abandonei a casa onde vivia. vivo? quero lá saber?!

vem!

(continua)

4/25/2006

porque

"temos a arte para não morrer da verdade" como cito no título, amanhã continuo a minha historiazinha da mulher do club de jazz.

em suma, regresso às minhas marés.

oceanography.tamu.edu

4/24/2006

as cores da nova maré

brookehouse.net
Sergey Chubarov

.muni.cz

Maria Vilaça

Conceição Lopes

Luiza Caetano


invadiram as ruas as cidades e as almas simples ou complexas.

acabei.

o dia em que o sol nasceu com outra cor


by Necde

o telefone toca. duas da manhã.

- estavas a dormir?

- se estava acordei, Tiago.

- não posso ir para Oeiras. há tropas na rua. não deixam passar.

- são nossas?

- não sei.
vai ligar o rádio. se ainda houver telefones, ligo a dizer mais. só podem ser nossas! é desta!

- é desta! obrigada Amigo!


toda eu tremia. gelada.
ansiosa fui ligar o rádio. ruídos vozes interrupções de ondas curtas.

era. era aquela a hora!

noite sem dormir esperando... ouvindo...

estava, era já certo, mudando a Maré.

quando o sol rompeu:

- mãe eu vou para a rua!

- nem penses sair. não fico com o menino. és mãe, não podes arriscar a vida. sabes tu lá o que para aí vai?!


sempre ela e o medo. sempre ela a cortar-me o prazer de ser.

fiquei em casa no dia ansiado. os nervos e a a raiva tiraram-me a fala, quase emudeci. a voz de contralto era um fio apenas.

dia 26 já abria os braços aos amigos que ainda estavam presos em caxias. forçar a saída era o fito agora. e...defender pides de serem linxados. trocar merendas por rações de combate com soldados exaustos, sorridentes.

toda a gente em festa. a festa!

foi assim, comigo.

a festa interior...não a sei contar.


Salgueiro Maia - vidas lusófonas.


.webcindario.

A. 25 de Abril

4/23/2006

mas

unseoutros.no.sapo


as comissões seguiam-se nas colónias e ao contrário do que nos faziam na escola cantar, Angola não era nossa.

os soldados eram mal pagos para matar e... morrer.

as gentes emigravam, fugiam, para poder pensar livremente, escrever, pintar, compor sem o lápis louco da censura.

a revolta enchia o peito à beira de estoirar.

uns nunca deixaram cair os braços, concordando ou não com eles, eram organizados e arriscavam a vida e a liberdade.

acordavam mentes temerosas. lavravam a preparar terreno nos incrédulos: prometiam futuros sem aquela vida dura, fome, analfabetismo.

Fernando Correia

mas só nos sobravam os campos o mar e... a poesia. porque as armas estavam na mão dos militares e sem elas, não há revolução em ditadura assim.

como esquecemos depressa os arautos !


Adriano Correia de Oliveira não deve ter cantado a pensar na glória ou... não teria chegado a começar. não soube aproveitar a maré alta antes de fazer a última viagem.

outros souberam. mas isso, felizmente, é bem depois.



Marino Parisotto






Menina dos Olhos Tristes


Menina dos olhos tristes
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Senhora de olhos cansados,
Por que a fatiga o tear?
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Vamos senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
- O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.

A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar.
- O soldadinho já volta
Do outro lado do mar.

O soldadinho já volta
Está mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.

Reinaldo Ferreira


entretanto camufladas palavras

de benditos poetas eram espalhadas por actores e por cantores . na espera. na esperança. a desmascar.

Dias dos Reis


Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por Suíços habitada,
onde a tristeza vil, e apagada,
se disfarça de gente mais activa;

Daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

Daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira da vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristôlho que se apaga;

Daqui, só paciência, amigos meus !
Peguem lá o soneto e vão com Deus...



Letra: Alexandre O'Neill
Intérprete: Fausto; A. P. Braga
Música: Fausto; A. P. Braga

4/22/2006

portas que se abriram

foto novaguarda

Pide Lisboa in Voz do Silêncio

Caxias . in Voz do silêncio

Pide Porto in Voz do Silêncio



Tarrafal in Voz do Silêncio
Peniche in Voz do Silêncio

Caxias in Voz do Silêncio

Pide Coimbra- in Voz do Silêncio
Aljube-Voz do Silêncio



intervalo até 25 de abril




Expresso

Foto Expresso

em nome dos que sofreram mais que do eu e, foram milhares.

em nome dos que já não se atrevem a falar e voltaram a ter medo.

passaram quantos anos?

isso importa?

é urgente lembrar!


john rosenthal

ainda o Portugal esquecido

guadiana-A.M. GALOPIM DE CARVALHO

Além - Tejo

Pare Olhe Escute

4/21/2006

detesto sapatos altos. tiro-os. atiro-os!

tropeço em alguém quase da côr da noite ainda iluminada pela cidade. olho de relance: um saxofonista negro.

Steffen Foerster

sorrio, sem parar. em qualquer outro dia, ficaria a ouvi-lo até que se cansasse. hoje não.
o saxofone brilha no seu amarelo pulido. excita-me. sempre. mas a minha excitação cresce ao apelo
dos teus olhos, através de um vidro.

tenho um encontro com que é o rei dos intrumentos de jazz, o piano-oceano. tu.



inventei-te a morte? não. reinventei-te a forma de morrer.

tu morreste no mar. hoje decreto. a as ondas, tão gulosas de ti quanto eu sempre fui, levaram-te no meio. numa disputa digna de ser vista por um olhar ateu.

ó meu amado entre elas te procuro! e não seja eu fêmea de corpo inteiro feita, se não te reencontrar, no mar, no mar. no mar!

(continua)

na minha vida

as marés tinham levado quase tudo. tinham apagado memórias boas e más. memórias que muitas vezes não queria ter perdido. como um computador, implacável, esgotado o espaço, recusa funcionar, assim eu me sentia.

genius loci

mas dentro da alma há passos de deserto que ninguém tem o poder de apagar. sobre esses eu caminho.


Peter Siejka

já não procuro jazz. o saxofone? não tinha a ver contigo. serias um piano de cujas teclas cordas e caixa se podem arrancar todos os sons melódicos. eras esse misterioso guardador de musica, discreto e sólido. não um metal.

tu, quem me arrancara de casa com um olhar que nem sequer podia ser o teu.

e ninguém me seguia. ninguém me procurava. depois de ti seria sempre assim: invisível aos outros ou quase.

corri para a praia. havia outro melhor lugar áquela hora de silêncio?

(continua)

4/19/2006

por trás de um vidro

a olhar-me fixamente, como de dentro do carro, quando tinhas de ir e eu ficava a ver-te, até a vista não alcançar mais. olhar de dor o teu, inesquecível. igual ao do último dia, que o foi sem eu saber.
ou saberíamos?

não eras tu. não tinha enlouquecido. era o olhar. não o suportei mais. amei-o só.

voltei ao clube, uma pausa. melhor!

1925studios.com

- vamos embora. ou estás a gostar muito?

- eu vim cá mais por ti, vamos quando quiseres. estás branca. está assim tanto frio?

- provavelmente a cerveja gelada...

riste. a cerveja estava-me morna e intacta entre as mãos.

em casa, enquanto tomavas o banho quente e demorado do costume, atirei-me para cima da cama. morta pelo passado.


Gosia Barta

olhei a flor no pulso. estranho ainda nem saberes que não gostava de flores de fantasia. estranhas tantas coisas em ti. estranho tu próprio.

ele. ele sim. ele sabia-me.

a saudade agigantou-se e eu saí porta fora, sem aviso. numa procura ansiosa mas, de quê?


(continua)