li marés há muitas: 05/2006

5/31/2006

porque sim

Doug Stewart


boa noite.

5/29/2006

Blind date vai a banhos

robert langloi

o tema será este e para quem souber francês, a letra da canção do Brel fica no ar. tem tudo a ver com o próximo post. não gostei ou não me apetece continuar o que comecei ontem.

entretanto, faço uma pausa até desaparecerem os curiosos não frequentadores deste blog, a não ser por uma curiosidade semelhante à que leva os portugueses a parar quando há um acidente, na esperança de ver sangue.

até à minha volta e, por causa do calor aconselho muito chá, o meu é sem açucar e verde de preferêncía.

até breve.

fiquem bem!

próximo tema

blind date by Katerina Marianou

5/28/2006

medo

Kelly Munce

medo de tudo, medo do papão
da boneca com olhos de vidro
do polícia do cão.

assim começavam uns versinhos que ela escreveu quando em menina, se escondia dos outros para viver.

um dia, sabe-se lá porquê ou como, o medo foi-se embora e não voltou. ela ficou contente mas estranhou.

seria porque uma cria lhe crescia no ventre até ali liso, espalmado, tipo cana de pesca, frasquinho, miss estaca, palito e outras coisas simpáticas que alguns homens portugueses dizem, alarvemente, às mulheres que não têm silicone?

só podia ser isso. essa força-raiva-de-fêmea adulta a defender a cria.
nem quando a polícia política lhe invadiu a casa. madrugadinha ainda e a levou, tremeu.

mas esta noite, esta noite não sei se durmo em paz, eu não, essa menina assustada, a dos versinhos. é que anda tanta ameaça virtual no ar, que ainda me entram pelo fio do telefone e me matam, no mínimo. ou então, como já por aí li , me atiram pedras aos telhados de vidro.

que chatice eu ter uma vizinha por cima que, com o barulho nas telhas, que são dela, também não vai dormir.

é que estes ataques são à noite, sempre à noite, ou então como dantes: madrugadinha ainda.

5/27/2006

ser

foto LMatta


ser mãe quando foi hora

mulher sempre.

ser dor quando difícil

o espaço de raíz.


sonhar água

onde parece não havê-la.


mas onde os outros

não vêem uma estrela,

sorrir-lhe de feliz.

5/26/2006

"é só fumaça!" quem é o dono disto?

Fotosearch

dos quatro cantos da Terra

vem ruído de pregões

uns dizem "Fotos das minhas"!

e outros vendem limões.

Photo by Mill House.

as avezinhas aprendem

desde novas esses sons

e perderam o cantar,

desafinaram os tons.


at Fotosearch

a Bíblia de quem será

de judeus ou de "cristões"?


ou : "Comprem estes limões" ...



escrevia-se para ser lido

nos bons tempos deste povo

hoje nada faz sentido:

vendem-se é blogs a rodo.



afinal de quem sou eu?

a quem pago a autoria?

ao meu pai, à minha mãe?

e se herdar a minha tia?...



William


tento tapar os ouvidos

mas oiço até às vizinhas:

- compre-me estes limõezinhos!

- não, compre é fotos das minhas!



Nota da autora: esta versalhada é minha e as fotos não, porque não tenho cheta para mandar cantar um cego quanto mais para comprar uma Nikon.

Todos os Direitos Não São Reservados.

Bom Fim de Semana e pelas alminhas, conduzam pela Esquerda!


5/25/2006

vim com a morte nos pés

René Asmussen

a minha rua é só restolho de obras, cascalho esbranquiçado cimento e pó.

há marcas de pneus e pés de gente. entre eles estão os meus. rasto pouco, de breve duração.
mas há marcas maiores que recusam apagar-se, as do carro da morte que veio por duas vezes visitar o bairro esta semana.
aqui morrem os jovens, ao colo de duras varinas de oitenta e poucos anos, os filhos delas.

sida ou hiv, como quiserem. hepatite A ou C? isso que dá?

a morte veio ao bairro e está à espera nas marcas ainda por esbater.

eu vim hoje aqui só saudar a vida. é um bem precioso, a aproveitar.

sejam felizes. todos! que a felicidade, essa é preciso construir.

5/24/2006

enfim pó.

um sinónimo é uma palavra que se usa quando não se sabe escrever a primeira palavra em que se pensou.

- Burt Bacharach

Etruscan and Roman Antiquities
at Insecula.

sei escrever exausta. ainda sei. não sei é as asas nos pés para me erguer, para me elevar acima das marés que me derrubam dia após dia nos momentos fracos.

momentos fracos? que mentira a minha!
eu já nem isso tenho. não os sei ter nem posso. endureci demais. a vida fez-me pedra.
carrego o meu peso de estátua pelas ruas e olho os outros com a expressão bela e fria que o vento me esculpiu.

engraçado. são todos carne e osso. só eu não. e no entanto, passo no meio deles. não me vêem. porquê?

quero lá saber!

quero é um escopro e um martelo que tenham força para me desfazer. e eu possa enfim voltar a ser poeira e ar.

5/23/2006

cançãozinha de pé descalço.

Gerhardt Thompson.

trago os pés doridos
longa a caminhada.
nada já me prende
à beira da estrada.

vou-me pela noite
de veredas mais nobres
vazias de luzes
e de lixos pobres

deitados dos carros
de quem passa lesto
deixando para trás
o que sabe a resto.

ponho os pés na água
macia do lago
a noite e o silêncio
são-me já afago.

e para trás deixei
ruídos, zumbidos
dos meus saturados
cansados, ouvidos!

5/22/2006

não devia ter deixado aberta

a vigia do barco.

dai ter sido minha a culpa do ataque.


da net

toda a gente conhece o veneno do minúsculo e insignificante peixe-aranha. que morde por morder, nem olha a quem.

cá para mim o animalejo tem complexos em relação ao escorpião...

mas o escorpião morde se o pisam, este não.

com um ego do tamanho de um golfinho, define um território em proporção e, ai de quem deixe a porta aberta ou melhor: o pé a jeito.

foi o que aconteceu: a figurinha atacou-me e eu deixei a praia enraivecida mas, sem sequer ter tido coragem de a pisar. coisas de educação judaico-cristã...

agora. queimada a mordedura e aprendida a lição, ou seja: não dou boleias de barco a peixes poluídos, sejam eles peixe aranha ou alforrecas. aqui estou a reabrir o blog.

boa semana a todos.

(por estas e por outras é que eu prefiro as praias no inverno.)

Blowup.

5/07/2006

depois do fim , por ser importante


a Maria de São Pedro do blog Lua de lobos lança dia 19 este livro, tratem de ir ao blog dela e saber mais.

Fiquem bem e Obrigada.

5/06/2006

fim

from news.uchicago.edu

quem me conhece deste meio, sabe que me é já quase um hábito terminar um blog e abrir outro logo de seguida, com outro nick mas com quase todos os amigos do costume.

não é o caso. é uma despedida, dorida, dos blogs porque de facto gosto de os fazer e aliviam-me a alma.

perdoem não explicar mais nada. não há nenhum mistério. cansei apenas de factos que querendo eu ou não, interferem sempre por mais que queira alhear-me

muita coisa se tem perdido neste País qua apesar de tudo amo, uma delas, a mais grave, é o sentido de humor.

tudo tem de ser sério, grave, intencional. não sei lidar com isso e isso, naturalmente manifesta-se na minha vida e, nos meus blogs.

desço nesta paragem.

boa sorte a todos.

ps: desculpa PiresF, não poder cumprir o prometido mas virei ler-te.

Brian Morrison


éramos invisíveis abraçados
abraçados vivíamos no meio
da multidão


e não nos viam os olhos ávidos
sequiosos de sentires alheios
como o nosso


éramos como linhas traçadas no destino
no início de todas as eras que há à luz
do sol sobre esta terra


por isso não nos viam abraçados
nos caminhos nos estádios cheios
de gentes


nos cafés nas lojas nas danças de salão
éramos invisíveis a tudo o que que não tivesse
a nossa claridade.

5/05/2006

In the Meadow

by Carsten Ranke
bom fim de semana.

5/04/2006

intervalo

two plack swans by Peter Gerasimon

5/03/2006

um melro. um talismã para mim

desperta-me, insistente.

adormeci nem sei bem a que horas. durante todo o tempo pensava onde parara o riso que nos unira desde a primeira vez.
e o melro, lá fora, redobra o canto, parece rir de mim, estridentemente.

apercebo-me de que estou sozinha. o Jaime saiu já. é natural, é uso dele levantar-se cedo quer tenha ou não de ir trabalhar.

sinto uma certa culpa, como se a minha noite no mar tivesse sido, de facto, uma traição. estou absolutamente sem certezas . isso angustia-me.

Pavel Krukov

fumo o primeiro cigarro. não devia. chamo-lhe o meu café para disfarçar o vício. vou até ao salão. não procuro ninguém, a vontade era permanecer deitada, não o faço por hábito. talvez depois de almoço.

vejo-o da janela, vem do mar. dantes era costume, era um homem de todas as marés. hoje parece estranho. será sinal de quê?


René Asmussen

- Maria...

- diz Jaime, diz.

- tenho ciúmes do teu amigo morto. tive sempre. não sabia mas tenho. insuportáveis!

- mas, dizias que não, sempre disseste...

- eu queria acreditar. menti-me a mim.

- perdoa meu amor, fui egoísta ao falar tanto dele.

- não, a culpa é do mar, por estar tão perto.

vem comigo ao deserto. é outro mar e tu sempre quiseste. vem Maria. reensina-me a viver.

- vou. hoje ainda. já, se tu quiseres.

(uma gargalhada no meio do nosso abraço mistura-se ao som do melro, que não parou ainda de cantar.)


David Shaw

5/02/2006

a pouca roupa colada pela água.

John Carmichael

nem o frio, se o há, eu sinto.

a vida voltou a parar quando deixei a praia.

em Varsóvia explico-lhe tudo, tinhas tu dito um dia. nunca explicaste. tudo interrompido por um beijo. agora é a própria vida interrompida.

por beijos? sim, também, mas tão distantes. onde estão as almas? duas dores separadas podem dar um amor?
penso? isto não é pensar, é matutar. é o regresso ao caos organizado à vista alheia, em que a nossa vida se tornou.

Itev

a casa. a casa nova grande e fria. sinto frio pela primeira vez desde o início desta noite de lenda.

onde encontrarei a primeira garrafa vazia? e a segunda? nem as procuro já, tropeço nelas.

farás tu de propósito? não sei.

sei do odor adocicado que sinto assim que entro no quarto e, não suporto mais!


Clint Walker

dispo-me. quero deitar-me e voltar a evasão, de olhos fechados.

sinto-o entrar uns segundos depois de estar na cama.

tens passo de ladrão, digo-te sempre. por mais que te aguarde não te oiço, sinto. sinto-te o odor.

cheiro o meu próprio ombro. estou nua e cheira ainda a sal. respiro fundo. alivio, fecho os olhos a tentar esquecer aonde estou. não dizes nada, não fazes perguntas. atiras o meu corpo para trás e deitas-te sobre ele.

se ao menos me tivesses olhado olhos nos olhos, terias tu coragem de me chamar amor, como te oiço dizer, até rolares para o teu lado da cama e, adormeceres?


Clint Walker

5/01/2006

todo o meu corpo raivava a evasão.

carl gillette

caminho agora, autómato de mim, para um mundo ao contrário do que sou. se sou alguma coisa.

Itzhak Ben Arieh

sei o que encontrarei, imagino a angústia viciante do homem que me espera.

amargurada alma que eu não amargurei, nasceu assim.

e toda a casa estará impregnada dele e do seu silêncio. dele e dele. dele estando presente mesmo quando não está. com um poder omnipresente de deus e de diabo, mas ali, à minha volta. sempre.

num cerco que se aperta, que se aperta à minha volta.

até quando? não sei.

Blowup

meu pobre querido amigo. soubesse ele como nos vai matando, lentamente...