li marés há muitas: como um copo que transborda

6/08/2006

como um copo que transborda


Nadia ergueu-se e disse de rajada enquanto se dirigia para dentro de casa:

- desculpa-me Ester, estou a ser cretina. que culpa podes ter? vou mostrar-te o teu pai.

voltou com uma foto.

- aposto que a tua avó nem falou dele.

Ron Seymour

os pergaminhos de família não lhe permitiam lidar com a verdade. podes guardar a foto, tenho mais. eu adoro o meu pai, apesar disto tudo...

- como foi que acabou ? não vou perguntar mais nada. prometo ir-me embora e tu esqueces depressa que me viste.

- eu não quero esquecer. quem esquece não aprende.

como podia acabar? a tua mãe engravidou. ele divorciou-se para assumir a filha que entretanto, por recato, a tua mãe tinha ido ter para outra quinta de família, queriam que nada se soubesse. não se soubesse a vida a crescer.

apareceste depois ao colo de uma ama. da tua mãe, nem rasto se viu mais. daí todo o mistério à sua volta.

- abandonou-me.

- não. abandonou-se.

o pai voltou a vê-la. infantil como quase todos os homens são, correu-lhe para os braços. sem perguntas. inteiro. cheio de amor.

uma manhã despertou sem ela ao lado. encontrou-a. regressara aos seus hábitos, adquiridos na capital depois de ti.

- mas que hábitos?

- não sabia ganhar a vida com trabalho. nunca tinha aprendido. só aprendera o sexo. foi isso que ela usou.


Pavel Krukov

silenciada, Ester não fez uma pergunta mais até ao fim da narrativa da irmã.

- ele, de triste pelo que viu, voltou ao mar.

Carl Maples

ainda me enviou lembranças de países distantes, muitas vezes. depois parou em Amesterdão e nunca mais voltou.

a minha mãe casou com um comerciante de uma cidade próxima e fez a vida dela.

é tudo Ester.

- então estão todos vivos.

- sim.

- a minha avó devia ter-me dito.

- deixa. de que te serve pensares nisso agora? ela morreu.


(continua)